A Câmara dos Deputados ganhou uma nova composição nestas eleições. O Partido Social Liberal (PSL), do presidenciável Jair Bolsonaro conseguiu ocupar 52 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. Está atrás somente do PT, cuja bancada é composta por 58 parlamentares.

Se o ex-capitão do Exército vencer no segundo turno, marcado para o próximo dia 28, ele terá uma oposição ferrenha na Casa. O mesmo vale para o petista Fernando Haddad, caso saia vitorioso da disputa.

Embora a situação tenda a mudar nos próximos dias, até agora nenhum dos dois partidos conseguiu arregimentar o apoio de outras legendas. O PSL tem apenas o PRTB, do general Hamilton Mourão, o apoiando — o partido do vice, no entanto, não conseguiu eleger nenhum candidato à Câmara. O PT, por sua vez, tem o PCdoB, de Manuela D’Ávila, e o PROS. Juntos, os três têm 73 deputados federais.

Neste domingo (7), depois de receber o resultado do primeiro turno, o candidato à presidência da República pelo PDT, Ciro Gomes, não quis nomear quem ele deve apoiar na segunda etapa da eleição, mas afirmou que “ele não, sem dúvida”. A declaração foi uma clara referência a Bolsonaro, a partir do movimento hashtag #EleNão, que surgiu nas redes sociais contra o ex-capitão.

Marina Silva (Rede) afirmou que, “independentemente” de que vença o segundo turno, ela e seu partido vão fazer oposição ao novo governo. “O Brasil precisa de uma oposição democrática. Podemos assegurar: estaremos na oposição porque é a única forma de quebrar o ciclo vicioso”, afirmou ela.

Já o candidato do PSDB à presidência, Geraldo Alckmin, afirmou que a executiva do partido deve se reunir nesta terça-feira (9) para decidir, entre outras coisas, sobre um eventual apoio no segundo turno. João Doria, que concorre ao governo de São Paulo pela legenda, já aproveitou a onda bolsonarista para declarar seu apoio ao candidato do PSL. “A partir de amanhã vamos apoiar Jair Bolsonaro (PSL) para presidente da República”, declarou ele neste domingo (7).

A professora Maria do Socorro Braga, da UFSCar, explica que, no sistema político brasileiro, de presidencialismo de coalizão, o apoio das outras siglas é “importantíssimo”. Segundo ela, embora Jair Bolsonaro tenha pregado, desde o início da campanha, que é o candidato anti-sistema, ele vai precisar negociar com as demais siglas para conseguir aprovar sua agenda de mudanças.

Ele precisa ter, no mínimo, maioria simples para aprovar medidas provisórias e dois terços da Câmara para aprovar mudanças na Constituição, por exemplo. De qualquer forma, segundo ela, ambos os candidatos terão que se debruçar mais sobre o centro do espectro ideológico antes do segundo turno, para conseguir o apoio do eleitorado que rejeita o candidato opositor.

Para o professor de filosofia política Luiz Bueno, da Faap, o petista Fernando Haddad é o que terá mais dificuldades de governar, caso se eleja. “O antipestismo está muito forte. Precisamos ver quais partidos vão aderir ao PT mesmo com essa alta rejeição”. Bueno, porém, critica a atuação de muitos partidos do chamado Centrão, bloco composto por DEM, PP, PRB e Solidariedade, que apoiaram Alckmin, mas podem vir a apoiar Haddad depois que ele for eleito. “Eles não são muito ideológicos. Alguns já têm histórico de mudar de lado conforme a conveniência”, disse.

Se hoje o PSL é a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, há quatro anos, a legenda havia conseguido eleger apenas um deputado — mesmo número de 2010, 2002 e 1998 (em 2006 nenhum candidato foi eleito na Casa). O partido era considerado nanico até o início deste ano, quando Bolsonaro ingressou na sigla.

Outros partidos pequenos também conseguiram eleger um número maior de parlamentares. É o caso, por exemplo, do Patriota, que tinha apenas 2 deputados e passou para 5. O Avante também tinha apenas 2 parlamentares (quando ainda se chamava PTdoB), em 2014. Neste ano, subiu para 6.

O mesmo movimento foi feito pelo PSOL, que tinha 5 deputados e foi para 11. O Podemos, que antes se chamava PNT, também elegeu 11 parlamentares, mas tinha apenas 4 na eleição passada.

“Esse é um marco do sistema político brasileiro. Talvez seja um movimento irreversível”, analisou o filósofo político Luiz Bueno. “Essa é a primeira vez que teremos um confronto direto de olhares muito diferentes de um mesmo país”.

Bueno, porém, não classifica esse movimento como novo. “Ele vem se desenhando desde 2013”, com as manifestações que ganharam as ruas naquele ano contra o aumento de R$ 0,20 no preço do transporte público, inicialmente, mas que depois se espalhou contra a corrupção. “Na época, se falava que esse era um movimento apartidário, mas logo foi tornando uma expressão da direita”, concluiu ele.

Mas se os nanicos, por um lado, tiveram sua ascensão, os partidos tradicionais, sofreram uma grande perda. O MDB, que, historicamente, sempre esteve entre os três partidos com o maior número de deputados federais, agora está na quarta colocação. Passou de 65 parlamentares eleitos em 2014, para 35. O PSDB também viu seu agrupamento diminuir. A bancada, que elegeu 54 deputados federais na eleição anterior, agora tem apenas 29 parlamentares.

Para os especialistas, é a conjuntura federal que explica esse fenômeno político.”Eles dois apoiaram o presidente Michel Temer. O PSDB só no final do ano passado deixou o governo, lembra Maria do Socorro.

Bueno, por sua vez, ressalta que a combinação de dois importantes fatores. “Muitos desses nanicos subiram com base na popularidade de Jair Bolsonaro. Somado a isso há insatisfação do eleitor com os partidos tradicionais, que estão envolvidos, principalmente, na Operação Lava Jato”, concluiu ele.

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