Assombroso constatar o aumento do crime de feminicídio e outras formas de violência contra a mulher que avançam a cada dia, tornando mais evidente que essa agressividade estúpida e inaceitável em oposição ao sexo feminino é uma consequência da crueldade, da desigualdade e da dominação de um gênero sobre o outro. Mas, afinal, o que é a desigualdade de gênero? Em síntese apertada, a desigualdade de gênero é entendida como um fenômeno social e cultural, no qual existe uma discriminação entre as pessoas na sociedade em razão do sexo.
Exemplo disso, além da violência física, moral e psicológica verificadas em todos os locais e classes sociais, as mulheres continuam sendo esmagadas pelos efeitos deletérios dessa desigualdade de gênero, haja vista, no mundo do trabalho, Elas receberem menor remuneração do que os homens para as mesmas funções exercidas, ainda que o grau de escolaridade delas seja superior ao dos homens; bem como na vida social as mulheres não podem se comportar livremente, pois são estereotipadas pela consciência coletiva de bandidas, vadias, vulgares e todos os pejorativos correlatos; em se tratando de poder, a mulher sempre ocupa, via de regra, posições de menor importância, desde o âmbito familiar aos trabalhos domésticos que incidem sobre as mulheres, ou seja, não há uma divisão igualitária dos afazeres domésticos entre homens e mulheres.
Além dessa expressiva desigualdade, a pior manifestação se dá na violência praticada pelos homens, sejam esposos, companheiros, namorados, colegas, vizinhos e mesmo desconhecidos, que avançam contra as mulheres, se valendo de sua condição de homem, biologicamente mais forte e as ofendem de todas as formas, moralmente, psicologicamente e o mais grave, tirando-lhes a vida, como estamos a assistir de forma tão acentuada neste início de 2019.
Tal estado de violência precisa ser debelado. É absolutamente imprescindível e urgente que a sociedade desenvolva a consciência de que os problemas e os conflitos entre homens e mulheres são estruturais, sociais, culturais e estão entranhados na consciência e no modo de agir e pensar da nossa sociedade machista, constituída e programada ao longo dos séculos para dominar, oprimir, inferiorizar e diminuir a mulher, alicerçada numa premissa onde ao homem tudo era possível e a Ela nada lhe era concedido a não ser rezar, procriar e cuidar da família.
Assim, uma quebra de paradigma, uma revolução para o bem se faz necessária, pois a violência contra as mulheres não é somente física, nem sexual, mas também psicológica, e esta leva milhares de mulheres à depressão e a ideação suicida. Nesse importe teórico, um número bem alarmante de mulheres é diagnosticado com a síndrome da ansiedade, transtorno do pânico ou depressão crônica, em virtude da violência psicológica imposta pelos seus parceiros. É preciso enfrentar e modificar essa dura realidade.
Essa realidade insuportável e cruel está mostrando a sua cara odiosa com mais intensidade e perversidade no despontar do ano de 2019, que já surge como ainda pior que 2018 na escalada de violência contra a mulher, a demonstrar que as estatísticas dessas agressões serão ainda mais assustadoras, aumentadas por minutos, horas e segundos de violências sexuais, verbais, psicológicas e a pior delas: a morte das nossas mulheres brasileiras.
Assim, é necessário, mais do que nunca, que essa desigualdade entre gêneros seja discutida, refletida, combatida, punida severamente e que o Estado, as Igrejas, a Sociedade, as Instituições, as Famílias e todos atuem, discutam e meditem sobre a desigualdade de gênero, ao invés de fazer dela um tabu e minimizar a conscientização. É preciso que se coloque a discussão sobre a desigualdade de gênero no centro da existência humana, na ordem do dia, pois somente dessa forma haveremos de combater e elaborar métodos de proteção, defesa e enfrentamento da violência praticada pelos homens contra mulheres neste nosso Brasil.
*Lia Barroso, advogada (OAB/BA nº 6853)

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